A produção audiovisual dramatiza o caso real da mulher mais jovem a receber prisão perpétua na Argentina, em 2018, pelo assassinato do namorado, Fernando Pastorizzo

Não há tapete vermelho. Não há função de imprensa. Os produtores preferem não comentar. Os advogados permanecem à margem. Hoje, seis anos depois de Nahir Galarza assassinar
seu namorado, Fernando Gabriel Pastorizzo, e se tornar a mais jovem argentina a ser condenada à prisão perpétua, a história ficcional do crime chega à tela do Amazon Prime Video.
Poucas horas antes da estreia, que aconteceu nesta quarta-feira na plataforma de streaming, os atores que interpretam Nahir e seus familiares participaram de um evento privado realizado com

grande sigilo. Quão envolvidos estiveram os protagonistas desta tragédia no desenvolvimento do filme?

 

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Nahir volta aos detalhes do homicídio: um jovem de 20 anos é encontrado morto na rua com dois tiros, um nas costas e outro no peito, próximo à sua motocicleta. A Justiça determinou que a

autora era sua namorada. Quando Galarza, aos 19 anos, confessou o crime, desencadeou confusão, polêmica e um linchamento midiático. O caso, que chamou a atenção de todo o país, sofreu

uma reviravolta quando a jovem acusou o pai, um policial, de ser o verdadeiro assassino, algo que foi rapidamente descartado pela investigação.

Assim que foi anunciada a realização desta produção audiovisual, a polêmica logo explodiu nas redes sociais: “Espero que os royalties vão para a família da vítima.” “Uma série que vitimiza um

assassino.” “Como se atrevem a fazer um filme sobre um crime recente que ainda deixa uma família em luto?” “Eles dão fama ao assassino!”, apontaram internautas. A ficcionalização de um caso

policial ressonante do ponto de vista dos assassinos é uma prática estabelecida e bem-sucedida: antes do caso Nahir, foi o dos Puccios no clã El, o de Carlos Robledo Puch com El Ángel e

O. J. Simpson em American Crime Story, entre muitos outros. Nas palavras de Alfred Hitchcock: “Quanto mais bem-sucedido for o vilão, mais bem-sucedido será o filme”.

Quem é pago e por quê?

O advogado de Nahir Galarza, José Ostolaza, garantiu, em diálogo com LA NACIÓN, que não interveio em nenhum tipo de contrato ou acordo com os produtores do filme. “Essa
circunstância foi tratada pura e exclusivamente pela família, creio eu, de Nahir Galarza, se é que realmente houve o que dizem que houve, algum tipo de pagamento. Não sei”.
Segundo fontes contadas a este jornal, Nahir Galarza cobrou 50 mil dólares pela transferência dos direitos de sua história. Alguns afirmam que com esse dinheiro o pai de Galarza investiu em

uma granja de galinhas em Gualeguaychú, enquanto outros destacam que o desejo de Nahir é que sua mãe administre esse dinheiro e o invista no tratamento da doença de seu irmão Aaron.

O advogado da mãe de Fernando Pastorizzo, Rubén Virué, confirmou ao LA NACIÓN que sua cliente, Silvia Mantegazza, “não cobrou nada”. O advogado garantiu que, assim que o filme
fosse lançado, caso o bom nome da vítima fosse prejudicado na ficção, eles poderiam considerar a possibilidade de buscar uma indenização financeira. “Isso acontece em todos os documentários
sobre homicídios no mundo, vai além desse caso específico. Temos que esperar a estreia para estudar se houve reclamação”. Além disso, Virué confirmou que Mantegazza colaborou – sem
qualquer contrapartida financeira – com uma série documental de dois capítulos produzida por Kapow sobre o caso, que ainda não tem data de estreia.
Julio César Raffo, jurista e filósofo especializado em cinema, explica quais são as possibilidades que existem quando se trata de narrar a vida de uma pessoa real em uma obra audiovisual, seja

ela de ficção ou documental, sem a autorização expressa do retratado ou de seus familiares. “A criação de filmes está sujeita à liberdade de expressão e criação. Se a pessoa for injustiçada no filme,

há direito a indenização, mas isso só será conhecido depois do lançamento do filme. Muitas vezes existe um acordo financeiro para evitar conflitos, mas se a história não ofende e não causa danos,

não precisa haver compensação financeira”, explica o especialista.

O advogado destacou ainda que, embora não seja necessária autorização prévia para contar a história de uma pessoa, viva ou falecida, notória ou não, por motivos de produção e comercialização,

é sempre aconselhável ter a autorização correspondente para evitar conflitos. “Produtores de prestígio – e astutos – obtiveram em alguns casos esta autorização através de um mecanismo

‘indireto’ – cita Raffo. No filme Gatica, de Favio, sua filha foi contratada como atriz em um papel secundário; no filme até então não realizado sobre Severino Di Giovanni, seu parceiro foi


contratado para assessorar o roteiro, de forma que sua participação se limitasse ao que o diretor-roteirista quisesse lhe consultar. Em ambos os casos, através destas ações, houve consentimento
 
tácito.
No caso do filme O Anjo, que retrata os crimes de Carlos Robledo Puch, constatou-se que o criminoso ficou muito chateado com a história e proibiu que seu nome fosse divulgado no filme,
 
onde o personagem é nomeado simplesmente como “Carlitos”. “Robledo Puch enviou uma carta-documento a Luis Ortega, à direção de sua produtora em Villa Crespo, proibindo-os de usar

seu nome no filme”, detalhou o jornalista Gustavo Carabajal em 2018.

Nahir atrás de Nahir

Nahir Galarza e Valentina Zenere

No final das contas, Nahir concordou com a escolha de Valentina Zenere para interpretá-la na tela. Fã de Soy Luna, Galarza cresceu assistindo Zenere na TV e está ansiosa para vê-la

agora. Porém, a atriz não teve a oportunidade de se encontrar cara a cara com Galarza, que cumpre pena no presídio de Panará, Entre Ríos.

Zenere confirmou que criou seu personagem por meio do exaustivo processo de pesquisa da produção. “Eu não a vi. A ideia era vê-la antes das filmagens, mas no final não deu certo. E no meio
das filmagens não sei se foi bom ver isso. Veremos mais tarde. Sempre gostei da ideia de nos conhecermos. Nem falei com os outros membros da sua família”, explicou a este jornal.

Como apurou LA NACIÓN, o diretor do filme, Hernán Guerschuny, preferiu que nenhum dos atores entrasse em contato com as pessoas reais que interpretaram para não “se molhar” nelas.

E nenhum dos verdadeiros protagonistas teve qualquer influência no roteiro filmado.

“Um fenômeno audiovisual sem precedentes”

Mónica Antonópulos interpreta a mãe de Nahir Galarza no filme

Mónica Antonópulos interpreta a mãe de Nahir Galarza no filme

O filme tem como principal referência O Silêncio de Nahir, livro escrito pelo ex-assessor de imprensa Jorge Zonzini, que destaca a magnitude do interesse da opinião pública e da mídia

nacional e internacional pelo caso. “O caso Nahir tornou-se um fenômeno audiovisual sem precedentes por múltiplos fatores, mas, fundamentalmente, porque compreende um ensaio psicossocial

revelador nutrido por pais narcisistas e violentos, mães imersas na violência de gênero e dois meninos muito pequenos como bodes expiatórios.”
Segundo Zonzini, o interesse é alimentado pelos detalhes do caso, entre os quais ele lista: “O julgamento quase expresso com que Nahir foi condenada em apenas seis meses, o tom sexista e

misógino dos promotores e juízes do caso, os apócrifos laudos periciais e, definitivamente, o questionamento do duplo padrão da justiça, pois era no mínimo sugestivo que uma adolescente de 19

anos, que se incriminou, confessou e entregou a arma do crime, recebeu pena maior, 35 anos na prisão, que foi recebida pelo ditador Jorge Rafael Videla ou pelo quádruplo assassino Ricardo
 Barreda. O filme não é tendencioso e tem um final aberto. Quem decide quem foi o executor do crime é o telespectador”, resume.
"O filme Nahir - Entre a Paixão e as Grades: Está disponível para transmissão no Amazon Prime Video"

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